domingo, 11 de dezembro de 2011

Deputado pode ser “cassado” novamente depois de morto

A Alesc – Assembleia Legislativa de Santa Catarina está prestes a cassar um deputado pela segunda vez.  A polêmica acerca da mudança do nome de uma rodovia estadual, no município de Penha, Santa Catarina, deu ensejo ao movimento liderado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça que pede a não revogação ou modificação da Lei que em janeiro deste ano reverenciou o nome de Paulo Stuart Wright, do único deputado catarinense cassado pela ditadura militar em 1963.

O Projeto de Lei (PL 0199.0/2011) de autoria do deputado Gilmar Knaesel (PSDB/SC) tem por objetivo modificar o nome da Rodovia Estadual Paulo Stuart Wright, que liga a BR-101 a Avenida Nereu Ramos, em Penha/SC, para Rodovia Estadual Francisco Leopoldo Fleith sob a justificativa que Fleith foi importante político local e dono de loteamento.

Memória curta?

O jornalista americano Doug Larson, conhecido por ter pensamentos expostos em camisetas, escreveu certa vez em sua coluna diária no Green Bay Press-Gazette que: “há muita gente que confunde memória curta com consciência tranquila”. Se o projeto de lei passar no plenário, revogará uma lei aprovada, por unanimidade e sem restrições, no dia 17 de janeiro de 2011. Se não bastasse este episódio, ainda há o fato de que a troca do nome da rodovia supõe que boa parte dos representantes catarinenses ignora a existência de um parlamentar que teve a história escrita, com sangue, no parlamento.

Natural de Erval Velho, meio-oeste catarinense, Paulo Stuart Wright era filho de missionários presbiterianos americanos. A formação cristã na educação; os estudos em Sociologia; e a atuação política posicionou Paulo Wright ao lado dos menos favorecidos. O mandato como deputado pelo extinto PSP – Partido Social Progressista, fez com que Paulo Wright conhecesse a vida difícil dos pescadores do litoral catarinense, e os organizasse numa federação chamada Fecopesca. Esse fato inspirou Dias Gomes a escrever a novela “O bem amado”. Cassado pela ditadura militar; e banido do rol de fiéis da Igreja Presbiteriana, Paulo Wright vive na clandestinidade sendo o segundo homem da APML – Ação Popular Marxista Leninista. Em 1973 é preso e torturado pelo II Exército em São Paulo, sob a coordenação do Coronel Brilhante Ustra. O corpo de Paulo, reclamado pelo governo dos Estados Unidos da América, e pelos familiares, nunca foi encontrado.
Discurso inaugural de Wright na Alesc


A professora Derlei Catarina De Luca, vítima da repressão armada da ditadura militar, conta que conheceu Paulo Stuart Wright num comício em Criciúma no início da década de 60, juntamente com o Presidente João Goulart, e voltou a vê-lo em 1968 quando entrou na clandestinidade. “O Paulo era disciplinado. Havia trabalhado com os pescadores catarinenses, e os operários do ABC Paulista. Lia e escrevia muito; entendia os problemas do povo e sofria por isso”.

Questionada sobre a não devolução do corpo à família, Derlei faz ponderações: “Acho que o corpo nunca foi devolvido porque o caso repercutiu muito nos Estados Unidos. O Senado americano fez um dossiê e enviou o senador Edward Kennedy para acompanhar o caso. O irmão e pastor presbiteriano Jaime Wright faleceu sem encontrar o corpo do Paulo.”.

Estrada tortuosa

Em matéria veiculada pelo jornal Beira da Praia, de Penha/SC, em 12 de fevereiro de 2011, o representante do Sinjusc – Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina Ricardo Schimtz Maes menciona a trajetória de Paulo Stuart Wright e a homenagem que o deputado catarinense recebeu com a denominação rodovia SC-414. Maes, afirma que o homenageado “constitui um símbolo na luta pela liberdade e justiça social, representando todo aquele que lutou contra a opressão do regime militar”.

O projeto de lei pode ser votado no chamado “pacotão de natal”, nas sessões de 13 a 15 de dezembro ou ser adiado para fevereiro de 2012 quando as atividades legislativas retornam. As bancadas do PT, PDT e PCdoB são favoráveis a continuidade do nome de Paulo Stuart Wright na rodovia. Em nota, o Deputado Gilmar Knaesel, do PSDB, justifica seu posicionamento. Em um trecho, o psdebista, menciona: “Reconheço a história e os feitos do ex-deputado Paulo Stuart Wright no que se refere a sua luta pela democracia e o Estado de Direito, tanto que votei favorável ao decreto legislativo que fez homenagem ao mesmo denominando o Plenarinho da Assembleia com seu nome. Mas considero que estamos atendendo o legítimo pleito da comunidade que deseja valorizar também os homens públicos que fizeram a história da região”.

Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça

O assunto é tortuoso. A partir das manifestações favoráveis para criação da Comissão da Verdade em Santa Catarina, através do pedido dos deputados Dirceu Dresch (PT/SC), e Volnei Morastoni (PT/SC) a ditadura militar volta a ser debatida no Estado. Já dizia Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal emérito de São Paulo e amigo do Pastor Presbiteriano Jaime Wright: “os povos que não podem ou não querem confrontar-se com seu passado histórico estão fadados a repeti-lo”.



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