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| José Hamilton Ribeiro |
Quis Deus, ou algum intérprete bem intencionado, que o Éden fosse lido como um jardim repleto de árvores enormes, plantas rasteiras, e animais de toda espécie. No princípio, não havia nada. Depois do sopro de Deus, sobreveio a vida. Mas, os degredados filhos de Eva quiseram a guerra. Para quem descesse em Saigon (atual Ho Chi Minh), capital do Vietnã, em 1968, não encontraria o Éden. Isso porque milhões de hectares de florestas; espécies de plantas e bichos (incluindo o homem) foram destruídas pelo despejo do Napalm (agente laranja) – poderosa e letal arma química utilizada pelas tropas americanas. Sobraram aldeias e pequenas plantações, mas nada de gente. Escondidos no que restou das matas, sitiados na capital, ou sepultados em montes de terra, aquele povo padecia juntamente com o lugar. Aos repórteres estrangeiros um cenário nada convidativo: um aeroporto guarnecido por canhões e metralhas; hotéis lotados; mercado monetário ilegal; prostituição; e centenas de milhares de minas explosivas espalhadas num campo de batalha disputado pelas potências mundiais. Estados Unidos da América e a Ex-União Soviética, gladiadores da Guerra Fria, dividiram um povo irmão milenarmente oprimido. Ao Sudoeste Asiático, em 1968, fora enviado o repórter José Hamilton Ribeiro, da Revista Realidade, que narrou e vivenciou a Guerra do Vietnã.
Apesar do cenário nada convidativo que se encontrava o Vietnã de outrora, um repórter vai para onde a notícia se apresenta. Hamilton Ribeiro, repórter brasileiro de Realidade (hoje na Rede Globo de Televisão), experimentou a sensação de aventura e fascínio que um conflito armado possui. Mas a visão de atrocidades e seu próprio infortúnio fizeram com que a Guerra reproduzisse o antigo mito do mar e do boneco de sal. Dizem que o boneco de sal quisera descobrir o que era o mar, mas o mar pediu que o boneco de sal o tocasse. Percebeu, o boneco, que uma parte de si se desfizera. E indagando o mar novamente e dizendo do ocorrido, o mar insistiu que para conhecê-lo deveria continuar. Totalmente imerso no mar, desfeito o boneco, ele era também o mar. Hamilton, sabia da existência das minas explosivas e tinha ciência do perigo. O desejo, porém, de conhecer a guerra, em sua integralidade fizeram com que fosse também um sequelado da guerra.
Após o acidente que o vitima, ainda no chão, ele reflete pesaroso sobre o ocorrido. Mas, ali tudo ainda é novo. Tem que resistir. É preciso lutar contra a dor. Tentar reunir o raciocínio que ainda resta. Ainda há esperança, mas há receio também. Depois, surge a experiência do hospital. A imagem e a mensagem do médico, e o mais terrível: o medo da morte. E porque há na morte uma dúvida pertinente e constante: o mistério do desconhecido. Hamilton passa dias na penumbra. Depois, vem a desilusão. Perdera mesmo o pé esquerdo. Sua perna estava reduzida. Ele estava reduzido. Mas houve tempo para perceber que sua dor não era apenas única. E isso se refletiu num soldado que perfurado a bala antes de morrer, canta. Canta estranhas canções.
O repórter brasileiro afirma que os nove dias em que passou no hospital militar foram os mais tristes de sua vida. Dores quase insuportáveis, náuseas, ausência de fome, o desespero da cegueira, a incomunicabilidade com alguém conhecido. Veio também, o sentimento de que estava sendo maltratado, e que os americanos de gentis antes, eram verdadeiros cavalos. É bem provável que Hamilton estivesse lúcido e não cego e inconsciente quando pensou isso. A mente de um homem que está prestes a entrar para a estatística de deficientes, já não mais raciocina como um homem simples. Era apenas um homem que queria voltar para casa, e que os dois lados do conflito também voltassem. A guerra havia acabado. Ao menos, para ele.
Li certa vez, em documentário, que não há “guerra santa”. Em verdade, não há guerra que não tenha embutida em si um interesse real de lucro. Mesmo as guerras primitivas objetivaram um ganho. O lucro, porém, é um conceito que chegou mais tarde. O Vietnã é reflexo das guerras de quintal que os americanos e soviéticos fizeram em todo mundo. Onde não conseguiram guerrear criaram Estados de Exceção. E cada lado fez suas vítimas: Brasil, Chile, Argentina, Peru, Praga, Varsóvia, Berlin. E o repórter nisso tudo tem ao seu lado o risco da profissão. Pode morrer trabalhando. Pode ele mesmo se tornar primeira página do veículo de informação que trabalha. Mas pode ter a infeliz sorte de noticiar mais desgraça. O importante é que a voz de quem oprimido está não seja silenciada, e que o repórter possa cumprir, efetivamente, esse papel: de porta-voz do mundo. Nada mais.
(*) O texto utiliza ténicas do Jornalismo Literário.
(**) A foto não possui fonte declarada.

2 comentários:
O repórter é um históriador da realidade. No caso de Hamilton além de reproduzir o real, ele foi a própria história. O texto escrito pelo William, traz emoção, dá vontade de acompanhar os parágrafos até o fim.
Belo texto William, marca de sua talentosa genialidade com as palavras.
Abraços
Carlos
Belo texto. Como fã de José Hamilton Ribeiro, vejo a grandiosidade do relato sincero. Compartilhei no Facebook para que mais pessoas possam ler algo de ínfima qualidade.
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