sexta-feira, 24 de julho de 2015

UMA VIAGEM PARA ETERNIDADE (In viaggio verso l'eternità)

Penso que há três verbos muito utilizados nos últimos tempos: curtir, comentar e compartilhar. As
pessoas conjugam tais verbos sem ter a noção exata do alcance e significado de tais termos. Um verbo, do latim verbu, sempre é palavra ou termo que expressa: ação, estado, qualidade ou existência de uma pessoa, animal ou coisa. Se as redes sociais nos deram a possibilidade de expressar pensamentos e sentimentos, elas se permitem, assim com o texto escrito, a viagem. A viagem é o “passar de passagem”; o ir para terras distantes. Quem viaja também peregrina. No último mês e início deste junho, eu pude realizar uma viagem a Europa. Compartilhei-a com centenas de amigos – que através dessa janela virtual peregrinaram.

Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia. Zeus por ela se apaixona e, na forma de um touro, a rouba. Na Ilha de Creta, Europa dá a luz a Minos e vai emprestar seu nome a uma das três partes do mundo antigo. Do mito à realidade, a Europa atual vê dificuldades econômicas e conflitos étnicos. Berço de uma esmagadora massa que vagou errante e emigrou para o continente americano, hoje a Europa recebe enorme contingente de imigrantes asiáticos e africanos. Serão eles os herdeiros da lenda europeia?

Tal viagem a Europa empreendeu um movimento por memórias antigas – de meus antepassados; e aprendizado – como troca de experiências. Somos parecidos. Algo, porém, nos diferencia. Se as guerras mundiais foram capazes de recriar cenários na Europa, também houve um recrudescimento daquele povo. O brasileiro é mais amplo e feliz porque a língua portuguesa, abrasileirada pelas tradições indígenas, africanas, e de várias partes do mundo, fizeram: “um povo de coração grande e sorriso no rosto”.

O roteiro com escritores, empresários e pesquisadores da Epagri compreendeu: a Expo Milão 2015,
feira internacional de alimentos e biodiversidade. Em Trento houve encontro internacional de escritores e pesquisadores da Universidade e da Província do Trento – que se dedica às pesquisas históricas e de imigração. Entre os escritores brasileiros: Carmen Tridapalli Fachini, Dorothy de Brito Steil; Carlos Massuci, Luiz Bastiani; Graça Fornari; Marcos Welter; Sonia Ripoll, Lino Lopes, e William Wollinger Brenuvida.

Nas montanhas de Auronzo di Cadore e Cortina D’Ampezzo, a neve a mais de 2 mil metros. No Vêneto: Verona, Garda e Veneza – a cidade dos Doges; e Chioggia com o relógio mais antigo do mundo. Percorremos a medieval Assis e a Cidade Eterna: Roma. O Mar Mediterrâneo em dois pontos: o Adriático e o Ligúrio. Firenze, e o Davi de Michelângelo; Vinci, e Leonardo. O Golfo dos Poetas, em Porto Venere e Cinque Terre. Gênova: o segundo maior aquário do mundo, e o porto que se despediu dos imigrantes. 

Na Itália, Cessalto e San Stino di Livenza,  a terra de meus ancestrais italianos. Em Áustria: Innsbruck, Viena e Salsburgo – belas catedrais e eficiente sistema de transporte coletivo. Na Alemanha, a belíssima capital Munique; o castelo de Neuschwanstein, em Füssen; e a montanha do Kehlstein, em Berchtesgaden, nos Alpes Baváros. Alcancei Neukirchen beim Heiligen Blut, terra de meus ancestrais Wöllinger. 

Em 25 dias de viagem pela Europa, eu rodei mais de 4 mil quilômetros, por três países: Itália, Áustria e Alemanha. Viagem como aprendizado e experiência somada. Peças de arte e arqueológicas de diversos períodos históricos. Gente de todo o planeta. Na bagagem ideias que podem dar resultado aqui. Voltei mais amplo. Sabedor que os dilemas são compartilhados. E que o caminho para eternidade é o próximo passo; a porta que se abre; o legado ancestral; a esperança que renova.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Jornalista: um observatório da imprensa

(*) William Wollinger Brenuvida

Todo jornalista é, per si, um observatório da imprensa. Se ao jornalista se dá mais crédito na apuração e manifestação, com isenção, da notícia; é reservado ao jornalismo de opinião uma fatia importante - desde que seja feito com argumentação, critério e momento.

Diante das manifestações fascistas e de cunho nazista que vimos nos últimos dias - independente de questões político-partidárias ou de revanchismo pessoal ou de grupo - o jornalista, principalmente o jornalista tem por obrigação combater o entulho autoritário e levantar a bandeira da Democracia; da Liberdade de Imprensa; e participar do processo de construção de uma sociedade que se comunique.

É o jornalista testemunha da História.

A despeito de inúmeras matérias que vi na imprensa, tentando mudar o foco da notícia e confundir o
leitor, eu parabenizo a equipe do Jornal Notícias do Dia pela coragem de expor o tema, inclusive com uma charge alusiva a morte do jornalista Vladimir Herzog, que foi diretor da TV Cultura de São Paulo, com passagem na BBC de Londres - onde aprendeu a fazer jornalismo com profissionalismo.

Minha geração aprendeu a enaltecer personagens como Vlado, Dom Paulo Evaristo Arns, Jaime Wright, Josué de Castro, entre outros ícones que lutaram pela Democracia. Entristece ver uma geração erigindo ao posto de líder pessoas como: Lobão, Telhada, Bolsonaro...

(*) William Wollinger Brenuvida. Jornalista (5177/SC). Autor de “7 contos da resistência”. Tem formação em Comunicação Social – Jornalismo e Direito (especialista em Direito Processual Penal). Foi delegado na 1ª Conferência Nacional da Cultura, em Brasília/DF, 2005.

(**) Publicado em 03.11.2014 - via Facebook

A IMPORTÂNCIA DE APRENDER UMA NOVA LÍNGUA

(*) William Wollinger Brenuvida

Na infância e adolescência eu e meu irmão tivemos uma influência advinda de descendentes
de japoneses. Além de sermos bem recebidos em  casas de famílias nipônicas, nós aprendemos, também, costumes, um pouco da língua e o modo como pensam os orientais. Notadamente para mim, que ainda sei um pouco do vocabulário, contar de 1 a 10 (risos) e diferenciar alguns pratos da culinária japonesa, esse contato foi primordial para conviver com diferenças culturais – e evoluir cultural e espiritualmente. Pouca gente sabe, mas fiz um pouco de karatê na infância – e muito da minha disciplina diante dos desafios cotidianos surge nessa época. Aprender é fascinante. E é aqui que começa nossa conversa…

De acordo com o livro “The Ethnologue: languages of the world”, o número de línguas faladas no mundo é de 6.912. Entre os 10 idiomas mais falados no mundo a língua portuguesa ocupa a sexta posição, com 218 milhões de pessoas – principalmente, em países como: Brasil, Portugal e Angola. Para ter uma ideia, o Mandarim (China) e o Híndi (Índia) ocupam, respectivamente, a primeira e segunda posição com mais 1 bilhão e meio de falantes. Acima do espanhol, em quarto lugar, está a língua inglesa –falada e escrita pela maior potência econômica do mundo: os Estados Unidos da América. Ah! Para constar, o japonês é o décimo idioma da lista, atrás do bengalês, russo e francês. O árabe é a quinta da lista – não menos importante que as demais.

Ao aprender uma nova língua nós estamos aprendendo, também, a cultura. E a cultura é primordial
para que nos tornemos mais civilizados, inteligentemente sensíveis e inseridos na aldeia humana. Basta uma viagem pelo país de origem, região ou país estrangeiro para que todo sentimento bairrista se dilua. Sem contar os inúmeros benefícios profissionais que o conhecimento de aspectos culturais, linguísticos e históricos traz.

Neste segundo semestre de 2014, dentro de um planejamento anual que faço, voltei a ter aulas de inglês. Na adolescência, ainda em São Bernardo do Campo/SP, fui aluno de duas conceituadas escolas de inglês: o CCAA e o CNA. Em 2014, ao retornar aos estudos da língua anglo-saxônica, o inglês, eu optei por me matricular no Wizard. E a metodologia utilizada tem me agradado bastante. Aliás, aí está um ponto decisivo na escolha: o método. Até o começo desse ano meu nível de inglês era satisfatório, nada que causasse um problema. Leio e pronuncio bem. Aliás, tenho um vocabulário em português acima da média e um vocabulário em inglês muito bom, mas a conversação exige uma nova forma de reeducar a mente para o desenvolvimento da língua e linguagem.

Para aprender uma nova língua é preciso enxergar mentalmente um novo fluxo de energia. É o que as crianças e os adolescentes fazem – notadamente até os 12 anos de idade quando a mente está ampliada para questões de comunicação. Mas, qualquer pessoa pode aprender uma nova língua. Eu falo, sem problemas, pelo menos cinco expressões em polonês e alemão; algumas dezenas em italiano; outras poucas em francês. Sem contar o japonês, que deu origem a este texto! Tudo parte da criatividade e do querer aprender. 

Confira os 10 idiomas mais falados no mundo:
. Mandarim – 1051 milhões – China, Malásia e Taiwan.
2º. Hindi – 565 milhões – Índia, regiões norte e central.
3º. Inglês – 545 milhões – EUA, Reino Unido, Partes da Oceania.
4º. Espanhol – 450 milhões – Espanha e Américas.
5º. Árabe – 246 milhões – Oriente Médio, Arábia, África do Norte.
6º. Português – 218 milhões – Brasil, Portugal, Angola.
7º. Bengalês – 171 milhões – Bangladesh, Nordeste da Índia.
8º. Russo – 145 milhões – Rússia e Ásia Central.
9º. Francês – 130 milhões – França, Canadá, Oeste e Centro da África.
10º. Japonês – 127 milhões – Japão.

Fonte: MDIG

(*) William Wollinger Brenuvida. Jornalista (5177/SC). Autor de “7 contos da resistência”. Tem formação em Comunicação Social – Jornalismo e Direito (especialista em Direito Processual Penal). Foi delegado na 1ª Conferência Nacional da Cultura, em Brasília/DF, 2005.

sábado, 30 de agosto de 2014

COLUNA DO WILLIAM

LÍNGUA PORTUGUESA: Se este colunista disser a você leitor que uma nova reforma ortográfica propõe frases assim: “oje os omens comam qeijo”. Como você reagiria? O Senado Federal, por meio de uma comissão composta por professores como Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel, vem estudando uma forma de simplificar a ortografia da Língua Portuguesa. Assim, deixaria de existir a letra “H” das palavras “hoje”, “história” e “homem”; a substituição do “QU” por “U”, ao exemplo das palavras “queijo”, “quero” e “aquilo”; a substituição do “CH” por “X”, nas palavras: “flecha”, “macho” e “cacho”; a substituição do “S” por “Z”, nos exemplos: “blusa”, “analisar” e “exuberante”; e a eliminação dos encontros consonantais: “SS”, “SÇ”, “XÇ” e “XC”, além da eliminação do “Ç”: Já imaginou escrever “amasar”e “eseção”?

O Brasil passou por duas reformas ortográficas, em 1943 e 1971. Em 1990, um acordo ortográfico entre os países que falam e escrevem em português (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé e Princípe, Guiné-Bissau, Cabo Verde e o Timor Leste) definiu uma reforma unificada até 2015.

Ora, se a reforma atual proposta pelo Senado parece absurda nós faremos o seguinte raciocínio. Uma placa instalada, em 1911, na Igreja do Carmo, na cidade do Porto, em Portugal, dizia: “É prohibido collocar cartazes e annuncios em todo o edificio d'esta ordem”. E você leitor, como reagiria?

“OATL”: A Oficial Academia Tijuquense de Letras deu posse para mais três escritores no último dia 15 de agosto, na Câmara Municipal de Vereadores de Tijucas. Os novos acadêmicos são: Benjamin Heidemann; Ofélia Terezinha Baldan; e Leandro Serpa. Respectivamente, um pesquisador e autor de obra sobre a Literatura Catarinense; uma poeta que constrói e declama de improviso; e um artista visual, também plástico, que trabalha o conceito da palavra-palavra; e da palavra-imagem.

DOWN OR UP: Pouca gente sabe, mas a designação “Down”utilizada no nome da Síndrome de Down nada tem haver com os antônimos, em inglês, “Down” (para baixo) e “Up” (para cima). É sim, uma homenagem ao médico britânico John Langdon Down, que descreveu a síndrome em 1862. A síndrome não é uma doença. É um distúrbio genético do cromossoma 21, descoberto em 1958, e que ocorre em 1 a cada 1000 nascimentos. Entender a síndrome é o primeiro passo para a inclusão. Assim, compreenderemos como uma educadora down pôde ser admitida em uma instituição de ensino – para lecionar. Esse fato abre novas perspectivas no Brasil para a educação inclusiva, e para uma sociedade mais madura que aceite o lema: “ser diferente é normal”, e que, pouca gente sabe.

INCLUSÃO 1: o Município inaugurou, no bairro do Jordão, o Centro Municipal de Atendimento Multidisciplinar Mikael Bento de Oliveira. É uma iniciativa inclusiva para que pessoas com deficiência possam transcender ao conceito da escola especial para uma escola aberta.

INCLUSÃO 2: A primeira iniciativa, em Gov. Celso Ramos, para incluir socialmente pessoas com deficiência surgiu com o Movimento Ação e Cidadania de Canto dos Ganchos, em 2001. O prédio da escola especial em Calheiros foi construído com o apoio da comunidade, poder público e trabalho voluntário. Como o Município não tinha uma proposta de escola inclusiva, aberta e integral, a ideia foi retomar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e fazer da escola um estágio de adaptação à escola aberta – que apenas uma década depois começa a engatinhar.

INCLUSÃO 3: No Brasil, as instituições de amparo a pessoas com deficiência não são recentes. O Instituto Benjamin Constant data de 1854; as Casas André Luiz, 1949; a Apae, 1954; e a Iatel 1968. A prática destas instituições proporcionou, ao longo do tempo, mudanças para que pessoas com deficiência sejam aceitas em escolas abertas, empregos e na tomada de decisões de uma cidade.

(*) Coluna publicada no Jornal A Cidade - Governador Celso Ramos. Agosto/2014

sábado, 24 de agosto de 2013

COLUNA DO WILLIAM - 14.07.2013

ARVOREDO I: Polêmica que divide opiniões é a transformação da Reserva Marinha B
Ilha do Arvoredo
iológica do Arvoredo (Rebio) em parque nacional. A reivindicação é de associações de mergulho, turismo e caça submarina. A reserva tem mais de 17 mil hectares e inclui as ilhas das Galés, Arvoredo, Deserta e o Calhau de São Pedro. Criada em 1990, não é permitida a pesca, a caça submarina e a visitação das ilhas. Barcos podem aportar no lado interno da baía da ilha do Arvoredo, no chamado Saco do Capim. O mergulho também é permitido, no lado interno da Ilha do Arvoredo.

ARVOREDO II: A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável promoveu audiência pública (11/07) para debater o projeto de lei que pede a transformação da reserva em parque. Especialistas condenam a mudança. Dizem que espécies de peixes, moluscos e crustáceos. Também quelônios, aves e outros mamíferos aquáticos continuam a existir na costa catarinense em razão da reserva.

ARVOREDO III: Muitos gancheiros viveram na Ilha do Arvoredo. Quando lá estive em 2012, entristeceu-me saber que não há mais patrimônio histórico material do período colonial e pós-colonial. Em 1000 d.C., a ilha foi habitada pelos ceramistas Itararés, indígenas do tronco linguístico Jê. Há a famosa Pedra do Letreiro e um Farol de construção inglesa de 1873. O ICMbio e a UFSC poderiam promover visitas controladas ao lugar, erigindo um memorial aos povos que habitaram nosso litoral.

TEATRO SIM: A peça teatral “A farsa do advogado Pathelin”, em cartaz em 24 cidades catarinenses, foi apresentada em Ganchos, na quarta-feira, 10.07. Um público de diversas idades. Muitas crianças acompanhadas pelos pais e professores da rede municipal de ensino se divertiram com um texto escrito entre os anos de 1464 e 1469, adaptado por Perito Monteiro e dirigido por Júlio Maurício. O arquiteto da prefeitura de Gov. Celso Ramos, Ismar Medeiros faz parte do elenco há 17 anos. O evento contou com a presença do Secretário de Estado do Turismo, Cultura e Esporte Beto Martins.
 
VIDA E CIDADANIA: Desde a década de 1970, Gov. Celso Ramos não recebia universitários voluntários do Projeto Rondon, coordenado pelo Ministério da Defesa. Entre as atividades estão: artes cênicas, ginástica e educação ambiental. Debates sobre sexualidade no contexto familiar, coleta e destinação de lixo e associativismo também estão na pauta dos rondonistas que ficam na cidade até 19/07.

sábado, 4 de maio de 2013

NA ARMAÇÃO

Patrimônio histórico e cultural de Governador Celso Ramos vai se perdendo por falta de conhecimento da população
 
Ossos de baleia
Com a maré cheia e o vento sul as ossadas das baleias caçadas há mais de 200 anos em G

Ossadas de cachalotes caçados há mais de 200 anos.
overnador Celso Ramos ficaram ocultas nas praias do sul do município. Com um pouco de persistência tivemos a informação do “cemitério das baleias”. Moradores e turistas mudaram o local de alguns ossos que estavam espalhados para um trecho da praia da Figueira, na Armação da Piedade. Mais de 3 mil indivíduos de cachalotes (physeter catodon ou macrocephalus) foram caçados até 1850, em Governador Celso  Ramos. Os cachalotes são espécies em extinção, e atualmente são encontrados há 150 km da c
osta catarinense. Gigantes dos mares, em todo planeta, a espécie ficou conhecida pelo sucesso alcançado pela obra Moby dick, do romancista americano Herman Melville, em 1851. Confesso
que foi muito estranho levantar o osso de um cachalote morto há mais de cem anos. Acompanhei meus pais nesta quarta-feira, 1º de maio, para ajudar no levantamento de dados para pesquisa sobre patrimônio histórico de Governador Celso Ramos. Meus antepassados que vieram do Arquipélago da Madeira, e dos Açores foram atraídos para a caça da baleia nos idos de 1750. Permaneceram na terra apesar do isolamento, fome, miséria, violência, e destino. Quem quiser conhecer o cemitério dos ossos das baleias deve vir a Armação da Piedade, a primeira vila de Governador Celso Ramos. O acesso é pela Rua Aristides Quintino, passando pela portaria do condomínio Recanto das Marés (a rua é pública e finda na praia – de acordo com a legislação municipal). Na praia, o visitante vai caminhar 200 metros até encontrar as ossadas. A paisagem é um atrativo maior, e a praia é bela e tranquila.
 
Bica da carioca
O que sobrou da Armação da Piedade? A igreja benta em 1745; as ruínas da
armação baleeira; e a bica da carioca. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que se preocupou em recuperar as fortalezas de Santa Cruz do Anhatomirim, Santo Antonio de Ratones, e São José da Ponta Grossa parece ter esquecido que no galpão náutico do Condomínio Recanto das Marés existe as ruínas de uma carioca datada de 1739. Se não cuidarmos do nosso patrimônio histórico, as próximas gerações sequer saberão o que Governador Celso Ramos representa para a história do Brasil. É assim que lembro a poesia de Juvêncio de Araújo Figueredo, um dos maiores nomes da literatura catarinense, intitulada “Na Armação”:
 
O meu avô materno arpoava baleias
E as conduzia para a Armação da Piedade.
E quando ele chegava, o povo das aldeias
Ia vê-lo, e lhe dava abraços de amizade.
 
Que festas ao luar, e ao brilho das candeias
Dançava-se na praia alvíssima, à vontade,
Como quem dança em casa. E as almas eram cheias
Dos vinhos da alegria e da felicidade.
 
Mas na velha Armação, agora, nada existe,
Desse tempo feliz, senão na alma bem triste
De um pobre velho cego, a lembrança alvadia,
 
De haver tido paixão por umas raparigas
Que ao saírem do mar, à noite, entre cantigas,
Pareciam visões vestidas de ardentia.
 
Na praia do Antonio Correa
Para não cometer equívocos eu não direi quem foi Antonio Correa. Pode ser descendente da numerosa família de Luis Antonio Correa, de genealogia portuguesa, e que, estava em São Vicente, São Paulo, nos tempos coloniais. O fato é que, na praia do Antonio Correa, Ponta da Costeira, Costeira da Armação, neste município de Governador Celso Ramos uma edificação col
onial se destaca. São as ruínas de um casarão que pode ter pertencido ao donatário Francisco José de Magalhães. É notar que Magalhães recebera, em 1782, uma sesmaria com 750 braças de frente por 1500 de fundos (terra) em Ganchos. Atualmente, essa edificação registrada em 2006 pelo estudo de gerenciamento costeiro (GERCO) está inserida numa propriedade particular chamada “sítio das ruínas”, longe da visitação pública e acessada por uma trilha de difícil acesso pela praia do Antonio Correa ou pelo costão rochoso.
 
Os desafios do plano de manejo da APA do Anhatomirim
O Frei dominicano Leonardo Boff, hoje teólogo e inserido no movimento ambientalista, mencionou em entrevista ao documentário “Eu maior” que “a mística é manter os olhos abertos, e as mãos operosas para transformar”. No limiar de um novo processo desenvolvi
mentista, o município de Governador Celso Ramos se vê num dilema: abrir ao capital estrangeiro e nacional, permitindo que as contrapartidas socioambientais resolvam problemas históricos e urgentes como saneamento básico, coleta seletiva de resíduos sólidos, mobilidade urbana, e equilíbrio econômico; ou restringir ao máximo, mantendo o ambiente como está (o que inclui as áreas totalmente degradas pela ação antropica) e cumprir, rigorosamente, a legislação ambiental – ainda que isso signifique a estagnação econômica completa. Não há saída. Com mais de 90% de esgotamento sanitário não tratado; com a escassez de recursos investidos na
pesca e maricultura; com um comércio fraco e limitado pelos constantes desequilíbrios da economia regional e nacional; e a comprovação do saque vilipendioso feito ao erário nos últimos anos por administrações que nunca visaram o desenvolvimento harmonioso da sociedade local, o fracasso é iminente. Diante disso surge a proposta do plano de manejo da Área de Proteção do Anhatomirim (APA).
 
Reunidos por anos, as comunidades pertencentes a APA (e do entorno); as associações civis e ambientais; as instituições de cunho público; e moradores debateram o plano de manejo, que é um plano diretor de uma área de conservação e/ou preservação. No plano, estão contidas regras que devem ser respeitadas por usuários de atividades náuticas, agricultores, pescadores, maricultores, construção civil, comércio e atividades outras de produção. Manter a espécie do golfinho conhecido como boto cinza ou tucuxi (sotalia fluviatilis fluviatilis) é uma das bandeiras da APA do Anhatomirim. A espécie, em extinção, é o símbolo de resistência do povo simples da região que pode se manter a terra. Se souber, evidentemente, explorar, com sabedoria, a imagem que o espécime pode trazer. É aguardar a análise e posicionamento dos técnicos do Instituo Chico Mendes para Biodiversidade (ICMbio) em Brasília, capital federal.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O estresse eletromagnético vai pegar você

Imagine a cena. Terminal de ônibus lotado. Você vence a fila e vai se acomodar na antepenúltima fileira de bancos do transporte coletivo. Liga o tablet, respondendo mensagens instantâneas que chegam a cada segundo via Twitter, MSN, Facebook Messenger. A conversa do casal de namorados a frente o incomoda, e você tira da mochila um fone de ouvidos. Você nem percebe e acaba se tornando o DJ daquele espaço do ônibus, provocando a ira de um senhor de mais de 60 anos de idade. Você abaixa o volume e nota que várias pessoas falam ao mesmo tempo em aparelhos celulares dos mais diferentes tipos. Enquanto isso, lá fora, no trânsito, na hora do rush, buzinas, faróis acesos, gritos e xingamentos, os rádios dos automóveis sintonizados em diferentes ondas: curtas, e médias – cada qual falando a língua de tribo urbana que lhe convém. Você nem percebe, mas milhares de sinais, chamados eletromagnéticos, atravessam o teu corpo, sem qualquer licença, pudor ou vaidade. Bem-vindo ao século XXI: a era da pós-fragilidade humana; do estresse eletromagnético.

O escritor italiano Umberto Eco afirmou que o século XX foi o século da fragilidade humana. As reflexões para o futuro, de Umberto Eco, continuam vivas dentro da gente quando iniciamos o dia em nossas viagens de ônibus e vemos antenas em prédios cada vez mais altos; aviões cortando o céu; rádio, TV, internet nos obrigando a entender como a informação nos afeta. Como a informação da energia eletromagnética pode alterar nossa saúde, como o estresse nos causa depressão, câncer, doenças degenerativas.

Você já imaginou quanto tempo passa em frente ao computador? Quantas são as mensagens enviadas por celular? O tempo exposto à luz fluorescente? O quanto barulho pode ferir seus ouvidos? De acordo com estudos do Dr. Norman Shealy e Dawson Church, a EMD (Electromagnetic Disthymia) é uma doença espiritual ou existencial e física. A Distimia Eletromagnética é um dilema para medicina, uma coleção de sintomas que necessitam de entendimento para possibilitar a cura: Depressão, Letargia, Ansiedade, Irritabilidade, Exaustão Psicológica ou Emocional, Concentração Deficiente, Insônia, Dor de Cabeça, Dor Contínua ou Dor Aguda. E o que é a doença, senão a reação do corpo ao estresse total da vida? É preciso reduzir a sobrecarga da estrutura eletromagnética ao corpo.

Em linhas gerais, significa dizer que toda essa tecnologia que somamos sem compreensão: celulares, rádios, notebooks, Ipads, tablets, microondas, aviões, portões eletrônicos, videogames precisam ser usados com moderação. É o ser humano um complexo sistema biolétrico, com nervos, veias, ossos, sangue, sentimentos, e pensamentos. E a saúde é o bem mais precioso para a continuidade da vida humana no universo. Acorde num cenário sem qualquer tecnologia, um campo aberto; mata fechada; praia deserta; o oceano sem abrigo. Ouça, em silêncio, a voz que emana do teu ser e deixe a criatividade vencer a prisão do estresse eletromagnético. Imagine a cena.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz ano velho: insana retrospectiva



Recordo bem o final do ano de 2011. Estava eu com meus pais em frente ao mar. Brindamos 2012; chutamos 2011. Reservo-me, hoje, a escrever despretensiosamente. O ano se esgota, vai seguindo seu destino ralo abaixo no tempo e espaço. Se 2011 fora um ano para esquecer; 2012 é o ano que não precisaria findar. Ao menos pra mim. Aqueles que me conhecem sabem que detesto retrospectivas. Gosto de relembrar: recordar é viver! A retrospectiva é insana porque engole num segundo os fatos; e os vomita de uma só vez no segundo ato. Considero, porém, que tomar um trem rumo ao passado, e depois retornar, é como mergulhar. E sobre isso gostaria de compartilhar com vocês.

Arvoredo: mergulho em memórias ancestrais
Sonhei tanto em ir ao Arvoredo que a sensação era de estar retornando aquele lugar. Vou deixar Jung fora dessa porque eu não acredito que o inconsciente coletivo me deu ideia para chegar lá munido de tanto sentimento de paz interior. O que eu senti é mais parecido com a poesia de William Henley. Nadar e tocar as pedras ancestrais do Arvoredo foi tocar em meu passado histórico, e nas memórias ancestrais. Aquele pedaço de Governador Celso Ramos, tão pouco conhecido por nós habitantes desta terra, é um lugar mítico. Os Itararé, do tronco linguístico Jê, andaram por lá há 1.700 anos, imprimindo nas pedras um registro de comunicação. Deixaram também cerâmica – recolhida pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. Não tenho certeza da passagem dos Guarani, mas é sabido que canoas de guapuruvu cruzavam o extenso braço de mar entre o Arvoredo e as praias de Governador Celso Ramos.

Nossos antepassados gancheiros – mistura e profusão de etnias – ancoravam, habitavam, pescavam, casavam, nasciam, festejavam e sofriam no Arvoredo. Hoje não existem mais registros desta época. A memória do nosso povo foi colocada abaixo pelo ato que transformou a área em reserva marinha federal. Preservar significa conservar. Proteção deveria significar cuidar. Ocorre que a restrição total a área colocou o povo contra o governo. E isso se deve ao fato dos mais antigos lembrarem que aquela área sepultou muitos parentes; mas também foi o palco de nascimentos; e de fartura em pesca que fez sobreviver inúmeras famílias.

Universo líquido
Embaixo d’água minha miopia se foi. E após 10 minutos eu respirava através do cilindro de ar comprimido, controlando bem o ritmo. Leva-se tempo para a adaptação. Os ouvidos sentem a pressão; a comunicação é feita por sinal mímico das mãos – que não servem para nadar; as pernas é que devem se adequar as nadadeiras, o tal do pé-de-pato. Com o instrutor RenéEiras, da Aquatrek, eu desci a uma profundidade de 6 metros, tocando a areia do fundo do mar do Arvoredo. Somos instruídos antes do mergulho a não tocar nos espécimes marinhos, e existe a explicação dos sinais, de como proceder com a compensação do ar e pressão nos ouvidos. O batismo que dura 30 minutos é um excelente oportunidade para observar a vida marinha, e aprender que o universo em estado líquido leva nossa consciência a um ganho de equilíbrio e evolução fora do comum.

Lá se vai 2012…

Ponto 1. Enfrentamos, eu e amigos, uma eleição municipal duríssima. O segredo da vitória talvez tenha sido não considerar, nunca, o adversário como inimigo. Em lados opostos, eu e meu passado. A maturidade do espírito credenciava a uma nova etapa. Palanques, ruas inteiras, casas e mais casas, chuva, frio, sol, e vento. Demos a oportunidade ao Juliano Duarte Campos para administrar o município. Foram conquistados, em nossa campanha a vereador, 316 votos. Não me elegendo, a conquista veio em forma de uma secretaria municipal: Planejamento e Urbanismo. Vitória do povo.

Ponto 2. Com a obra 7 contos da resistência publicada, nós chegamos ao terceiro livro. Vitória da literatura, da cultura literária, dos que leem o que escrevo, dos que criticam, do que incentivam a luta.

Ponto 3. Paulo Wright vive! A rodovia estadual que liga Penha a Piçarras continua se chamando Paulo Stuart Wright. Vitória do Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça. Vitória do povo catarinense.

Ponto 4. Registros históricos coloniais preservados. O reencontro com nosso passado histórico é incrível! Consegui ir além em minhas pesquisas. Avançamos em todos os flancos.

Ponto 5. Corinthians campeão da Libertadores e do Mundo. Que emoção ver o time que nasceu no Bom Retiro ganhar o mundo. Acabou o complexo de vira-latas, sem perder a humildade. Uma resposta ao futebol europeu. A festa, na avenida, da favela.

Ponto 6. A vida que está em meu sobrenome não termina, vai somando experiências!!
E que venha 2013!!!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

309 abraços e 7 saudações


O escritor português José Saramago, falecido recentemente, dizia que o único e verdadeiro progresso é o moral. O restante? É ter mais ou menos bens. Longe de ser um puritano, Saramago se revelou um exímio observador do tempo, dos costumes, do pensamento humano. E fazia isso para distrair a morte, em narrativa de resistência. Saramago era apenas mortal. Tinha qualquer sentimento de velho. O compromisso com a humanidade sobreviveu; e o bom português partiu, sem nada de bens.

Declamação de poesia na ALESC
Cada qual guarda uma estratégia. Até mesmo os mais desprovidos. Acho que principalmente os necessitados. Sabe lá, a vida sempre prega peças. Roda gigante, roda pião… já sabemos o final dessa história. Às eleições 2012 cabe uma ressalva, deste que vos escreve: 309 abraços e 7 saudações.

Sem citar nomes, venho agradecer a cada Ser que depositou seu voto de confiança em nossa candidatura. É sabido que conquistar 309 votos e outros sete de legenda não é tarefa simples. Encontrei muitas pessoas honestas, dignas, educadas; mas, encontrei também casmurros, e doidivanas. Há histórias que cabem em livros; há relatos que devem ser esquecidos. Um dia o cabresto acaba; o escambo desafina; a alforria chega; o coronel perde o posto; e Liliput encontra o rumo.

De tudo sempre restou o respeito. Com esta terra que eu amo e tenho raízes. Um menino, com 10 anos, parou para ouvir nossos discursos; outro mais novo carregou nossa bandeira. Houve votos da juventude descrente da política; de católicos, evangélicos e ateus. Votos de velhos amigos, e amizades conquistadas com olhar sincero e caráter. Também houve quem espalhasse inverdades, mas isso sempre há – desde que o mundo é mundo.

Em 2004, conquistamos 181 votos; em 2008, foram 189 (9 da legenda); e em 2012 foram 316 (7 da legenda). Mas, a luta continua! A caminhada é longa. O povo é soberano na escolha. E não há que negar! Fazendo tudo certo, sem burlar as regras, o único e verdadeiro progresso é moral. O restante? É ter mais ou menos bens. Nosso abraço a todos!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Geografia da minha terra


Canto dos Ganchos, 30.05.2012.

Os casebres de madeira, lentamente, subiam os morros, desafiando a gravidade e a tonalidade das pedras. Caminhos tortuosos eram percorridos. Eram poucos os tamancos, escassos os vestidos de chita. Os pés descalços, os panos e seus remendos, pouco ou nenhum dinheiro, tarefas… Nada impedia os namoricos, que nesse tempo não passavam de troca de olhares em missas e festividades. Os recados eram enviados durante a secagem dos peixes, em varais que quaravam ao sol. As mulheres e as crianças ajudavam na escalação do peixe; os homens iam para o mar. Trabalhadores que negociavam em longínquas paragens. Exímios navegadores, conhecidos pela destreza nas lidas do mar. Eram poucas as famílias numerosas, mas davam a ideia de quantidade. Morriam muitos. A infância era quase sempre, morte anunciada. “Olha a malina! Vai pra dentro de casa, su istepô” – gritava a mãe ao filho pequeno. Mãe sempre tinha razão-emoção. Malária, febre amarela, varíola, tuberculose, pneumonia, tétano, sarampo, coqueluche, gripes e resfriados. Expectativa de vida: 30 anos.

Ganchos era um paraíso? Tracemos uma linha imaginária. Reconstruamos o passado. Pensemos! O pensamento é controlado. A imaginação é criativa. Avançamos tecnologicamente; diminuímos a solidariedade. Antigamente, minha avó dizia que ninguém morria de fome em Ganchos. Morria-se de tudo dizia ela, mas nunca de fome, nem de bala de revólver, tampouco de faca amolada – a não ser que por descuido, exagero de amor, ou falta de tato. Homens valentões, em Ganchos? “Casi di quê, mô filho? Tem precisão dissu? Homi tem que buta cumida na mesa e dar carinho pra famia.”, disse-me um velhinho de Ganchos, certa vez. A vida sempre foi vivida em Ganchos com lentidão. Mas, isso não significa que não havia trabalho. Trabalho sempre houve. Cada casa tinha sua roça de aipim, café, e o que se permitia pra estação – e pra terra dura! O mar entregava, a muito custo, cações-mangona, sargos, tainhas, garoupas, paratis, linguados. Camarões, siris, mariscos eram iguarias que se comia com fartura, mas o peixe era o prato principal. O mar sepultou muita gente. Era o preço! O mar sempre cobrava sua parte. Mas, antes as famílias eram mais solidárias, dividiam o pirão de peixe, e o café de mingola. A procissão subia o morro da igreja cantando: “queremos Deus/ um povo aflito”. Hoje, meu filho, as pessoas morrem de depressão inventada em posto de saúde, minha avó dizia.

Há 264 anos, nós, descendentes de imigrantes dos Açores e da Madeira, trouxemos para essa terra uma coragem sem igual, e uma invenção tipicamente alentejana: o gerúndio. E assim, a gente fica cantando, esperando, rumando, enxergando, navegando… O gerúndio é para quem age com cautela, com reserva, com espera. O espírito português sempre foi aventureiro, assim, o mar nunca o fixou na terra. Enfrentamos a força bruta das armas, e a esterilidade da terra. No trato com o mar, sobrevivemos. Ensinamos ao mar que nossas festas eram convite à vida; respeito ao grande-mar que nos alimentava e inspirava. Não entendo porque, hoje, desrespeitamos o mar, minha avó dizia.